DCL

“As pessoas de Nova Cruz, todas elas são para mim paradas no tempo, como por trás de um espelho, mais ainda as que se foram, são como um mundo encantado em que vejo acolhimento, paz e boa saudade” Dr Diógenes da Cunha Lima

sábado, 27 de setembro de 2025

Nova Cruz e a República Velha: prefácio


Dr. João Agripino da Silva

Apoiador ou protagonista, nas memoráveis campanhas políticas, sempre tive consciência da relevância do desempenho social, político ou religioso de inumeráveis famílias tradicionais nova-cruzenses, inclusive de minha própria família paterna.

Além de comerciante (estabelecimento comercial vizinho à residência e comércio de Seu Arruda Antônio Arruda Câmara), o patriarca Fortunato José Gonçalves foi um dos construtores, nas décadas de 20 e de 30 do século passado (República Velha), desta encantadora cidade de Nova Cruz.

Anísio Gonçalves da Silva (Anísio Fortunato) e Ismerino Gonçalves da Silva, filhos de Miguel Gonçalves da Silva, este mais conhecido por Miguel Fortunato (primogênito) participaram ativamente da política do Município. Anísio, ao lado de Aguinaldo Rosendo, Domício Vicente da Costa e Abílio Alves de Lima, um dos fundadores, em Nova Cruz, do Movimento Democrático Brasileiro MDB, partido que fez ecoar o grito libertário contra os desvios de rota do regime militar, tudo sob a brava liderança do deputado federal Odilon Ribeiro Coutinho, cujos discursos inflamavam multidões em meio das quais estava quem escreve estas linhas.


Não se pode esquecer a figura de José Gonçalves Sobrinho, filho de Agripino Gonçalves da Silva, este o filho de Fortunato mais presente em Nova Cruz (agropecuária e laticínio). José, candidato a vice-prefeito na chapa de Targino Pereira (primeira campanha), permitiu que Targino, depois de abandonar seus antigos apoiadores, fosse vitorioso na segunda.

            Eleito Antônio (Gonçalves) Gomes vereador, filho de Jorge Gomes e de Noêmia Gonçalves da Silva, esta neta e ele, Antônio, bisneto de Fortunato, surge a redação de alguns projetos de lei municipais para resgatar a memória do ancestral ilustre Fortunato José Gonçalves (nome de rua) e para homenagear personalidades outras merecedoras da gratidão da municipalidade.

            É o caso da denominação de Avenida Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira dado a todo o percurso da antiga linha férrea que cortava a cidade, do Catolé, hoje Bairro de Santa Maria Goretti, até a Rua do Cemitério, no limite do Rio Grande do Norte com a Paraíba.

            Antônio (Gonçalves) Gomes presidente do poder legislativo municipal, disse-lhe ser interessante que a edilidade patrocinasse estudo ou pesquisa sobre a participação de famílias nova-cruzenses que, de uma forma ou de outra, houvessem estado em evidência no Município a fim de que se pudesse, ao homenageá-las ou alguns dos seus membros, colocar, abaixo do nome, sucinta nota sobre o significado da homenagem.

Por exemplo: foi o presidente Juscelino que unificou as estradas de ferro “Sampaio Correa” (Nova Cruz, Natal, São Rafael – RN), e a “Great Western” (Nova Cruz, João Pessoa, Recife), transformando ambas as vias férreas na Rede Ferroviária Federal S.A. – R.F.F.S.A, dando-lhe melhor desempenho no transporte de pessoas e de carga, o que muito beneficiou Nova Cruz. Foi aí que as potentes locomotivas a diesel substituíram as marias-fumaças.

O professor Pedro Marinho acabara de publicar seu livro sobre as campanhas políticas em Nova Cruz Nova Cruz: retrato de uma história. Seria ele a pessoa ideal para fazer o trabalho de pesquisa.

            O presidente da Câmara contra-argumentou: embora a ideia seja boa, não posso aceitá-la; o professor é meu adversário.

            É, disse-lhe: cada um tem o direito de agir segundo suas convicções. A ideia morreu aí.

            De imediato, vem a recordação de João Agripino, líder da oposição no combate à ditadura de Getúlio. No Governo da Paraíba, prestigiava os correligionários, mas, quando se mostravam incompetentes, nomeava, para substituí-los, até adversários, desde que se mostrassem preparados para o exercício do cargo.

            Anos depois, a surpresa ­ telefonema de um jovem escritor Gustavo José Barbosa. Lera dois trabalhos da bibliografia de Nova Cruz: “Desígnios da Providência” e o “O Nova-cruzense do Século XX”. Gostaria de obter os respectivos autógrafos (2022). Foi uma honra conhecê-lo. Passou a comparecer às reuniões familiares anuais da “Fazenda Barreiras”, esta constituída por Fortunato José Gonçalves ainda sob D. Pedro II.

            E quem é Gustavo José Barbosa?

            Mestre em agroecologia, extensionista rural da Empresa Paraibana de Pesquisa, Extensão Rural e Regularização Fundiária – EMPAER; sobretudo genuinamente nova-cruzense e autor da biografia de outro nova-cruzense não menos ilustre – o professor Rivaldo d´ Oliveira, de quem (que pena!) não me aproximei, ainda que amigo do seu irmão Reginaldo d´ Oliveira, em Nova Cruz, e tendo morado na mesma rua que ele em Natal (Rua Otávio Lamartine), no bairro do Tirol.

            Genuinamente nova-cruzense: seus ancestrais agricultores nas localidades do Gravatá, Xique-Xique, Bastiões e Lapa, no Município de Nova Cruz. Ex-aluno (ensino fundamental) do Colégio Nossa Senhora do Carmo, árvore frondosa da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição no início do profícuo pastoreio do inolvidável Monsenhor Pedro Rebouças de Moura, dirigido pelas irmãs Franciscanas do Bom Conselho (Madre Calvário, Madre Aurora, de saudosa memória, e Irmã Tarcísia Carmelita). Ex-aluno da Escola Agrícola de Jundiaí, onde pontificara o professor Rivaldo d´ Oliveira; nascido aos 12 de novembro de 1982, na Rua Nestor Marinho na cidade de Nova Cruz. Essa rua fica por trás da 13 de Maio, berço de outro venerando nova-cruzense  D. Antônio Soares Costa, prelado ilustre de que a cidade deve orgulhar-se. Como se vê, sob o firmamento abençoado da 13 de Maio, surgiram duas estrelas de primeira grandeza: D. Costa (religioso) e Barbosa (literato).

Analisando a ascendência de Maria das Neves Barbosa, mãe do autor, observa-se que José Barbosa da Silva e Luiza Maria da Conceição, bisavós maternos de Gustavo, nas décadas de 1920 e 1930, faziam agricultura familiar na comunidade de Bom Sucesso, contígua à Fazenda Barreiras, o que faz vislumbrar longínquo parentesco familiar entre Gustavo José Barbosa e o professor Gilvan Pio Ribeiro, também ex-aluno da Escola Agrícola de Jundiaí, hoje professor emérito da Universidade Federal Rural de Pernambuco.

Ora, o pai do professor Gilvan, João Paulo Marcolino Ribeiro, casado com Maria Pio Gonçalves, neta de Fortunato, integrava a família Marcolino Ribeiro, proprietária da localidade de Bom Sucesso. No passado, nossas famílias eram próximas: mais um traço emotivo para justificar a honra de elaborar o prefácio desta significativa obra Nova Cruz e a República Velha, delicioso repertório de fatos desconhecidos da maioria dos estudiosos da antiga “Urtigal”, “Anta Esfolada” ou da moderna Nova Cruz desde a Proclamação da República (1889) até 1930.

Com este trabalho magnífico, a ideia sepultada pelo desinteresse do poder legislativo municipal, sem razão plausível, ressurge, qual fênix mitológica, das cinzas da memória para satisfação dos que amam Nova Cruz.

 

            João Pessoa, 13 de abril de 2025.

Nenhum comentário:

Postar um comentário